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Não
podemos ignorar que o itinerário de António Pio situava na margem direita do
Douro uma pequena povoação, de seu nome Gale, que, segundo Pinho Leal,
significava defronte de
Gaia. Seria o local dos que, vindos da Bracara Augusta para o sul,
tinham de descansar antes de entrar nos barcos, no portus, e rumando a
nascente do Castelo de Gaia seguiam para Lancobrica (a actual cidade da
Feira), Talabrica (Aveiro) ou Aeminium (cerca da actual Coimbra).
O Castelo de Gaia, ou o que
restava dele, desapareceu aquando das lutas liberais. Os miguelistas
tinham-se apoiado naquele local, montando aí uma forte bateria que, segundo
consta, seria a que bombardeou o Palácio dos Carrancas onde D. Pedro tinha
estabelecido o seu quartel-general. D. Pedro, bombardeado no seu próprio
quarto, mudou para Cedofeita, mas, no dia seguinte, na sua habitual visita
as linhas, foi até aos canhões que tinham montado no local que chegou a ser
conhecido como o da Bateria das Virtudes (onde esta hoje o SAOM) e, afinando
a pontaria, desfez o reduto do Castelo de Gaia e, claro, as ruínas do
próprio castelo. Se calhar e só uma interpretação dos factos, mas a verdade
é que o que restava do castelo de Gaia desapareceu naquela altura.
Outros querem, por exemplo,
que a antiguidade deste lugar seja atestada pela inscrição existente na
Igreja e onde se lê "Prima Cathedralis fecit haec. Basilius oh egris quam
pedibus sanus, condidit inde Petro", o que em versão portuguesa daria "Esta
foi a primeira catedral do Porto. S. Basílio, apenas se viu são dos pés, a
edificou, e por aquele motivo a dedicou a S. Pedro". Ora este S. Basílio
morreu no ano 37, e segundo algumas opiniões poderá ter sido o primeiro
bispo do Porto.
A ser assim, a Igreja de
Miragaia teria sido fundada no ano 37, o que, convenhamos, seria antiguidade
a mais....... E das duas uma: ou a tradução (ou a inscrição em si) é
deficiente ou o S. Basílio é outro que não o referido como bispo do Porto,
até porque no primeiro século da nossa era o Porto nem sequer existia.
Carlos Passos, na vertical "Guia Histórica e Artística do Porto"
supõem-na remontando ao século XIII e do tipo românico, mas a actual é do
século XVIII, já que em 1740 foi a anterior demolida na sua quase totalidade
- só escapou a capela-mor e os lados do transepto.
Na primeira metade do século
XV, um grupo de arménios, fugindo dos turcos, em 1453, vejo até ao Porto,
trazendo consigo as relíquias de S. Pantaleao, martirizado em 1305, em
Nicomedia, e que haveria de ficar como patrono da cidade. Foram estas
relíquias depositadas na Igreja de Miragaia e em cofre de prata lavrada
oferecido por D. Manuel I, para dar cumprimento a uma das ultimas
disposições do seu antecessor e primo D. João II, e mais tarde, em 12 de
Dezembro de 1499, transferidas para a Sé do Porto por ordem do bispo de
então, D. Diogo de Sousa.
Curiosamente, e aquando das
lutas liberais, alguém fez desaparecer da Sé o cofre das relíquias... e
nunca mais apareceu nem um, nem as outras. Pinho Leal escreveu que o ladrão
tinha sido um nobre, que ele sabia quem era, mas não o dizia...
O nome desta nossa freguesia
é controverso e, como não podia deixar de ser, a lenda entrou na vida (ou
será que a vida entrou na lenda?), e o miragaiense Almeida Garrett, que
nasceu, em 1779, na Rua do Calvário, recolheu da oralidade popular um
romance que, pela sua mão, viu a luz do dia pela primeira vez no primeiro
volume do Jornal de Belas Artes, em 1845.
Em resumo, no ano de 932, o
rei Ramiro desceu da Galiza e veio raptar Zahara, a bela irmã do xeque
Alboazar, e este, ofendido e por vingança, rapta a não menos bela esposa de
Ramiro, a rainha Gaia, vindo a apaixonarem-se perdidamente um pelo outro.
Ramiro, ignorando esta situação, vem com o filho e as suas gentes de armas
até ao castelo do rei mouro que, na margem esquerda do Douro, se erguia no
caminho do rio para a foz. Ramiro esconde as suas gentes na encosta, sob a
folhagem, e vestido de romeiro sobe a rampa e fica junto a uma fonte, a
espera de novidades. Uma criada vem buscar água fresca à fonte para a sua
nova ama – a cristã. E logo Ramiro aproveita para esconder o seu próprio
anel na água da bilha e fica a aguardar.
A rainha Gaia, ao encontrar o
anel na água, pressente a verdade e manda chamar o romeiro a sua presença.
Apaixonada pelo mouro, resolve desfazer-se do marido e, embriagando-o,
prende-o num quarto, que se abre quando chega Alboazar. Ramiro tenta reagir
mas é logo preso pelas gentes do mouro que, sorrindo, lhe pergunta o que lhe
faria ele, rei cristão, se tivesse as mãos o seu inimigo. Ramiro,
lembrando-se do que acordara com os seus homens, responde que lhe faria
comer um capão, beber um canjirão de vinho, e depois coloca-lo-ia no alto da
torre a tocar trompa até rebentar. Alboazar acha graça e diz-lhe que será
então essa a sua morte e, para mais gáudio, manda abrir os portões do
castelo a convidar todos os moradores extramuros a virem assistir.
Ramiro come, bebe, toca a
trompa e de repente as suas gentes, ouvindo o sinal combinado, irrompem
pelos portões abertos do castelo, chacinando as tropas sarracenas
desprevenidas. O próprio Ramiro mata Alboazar e, pegando na mulher, ruma
para o barco, seguido pelos seus homens. Já a bordo, encara, atónito, o
pranto da esposa, que fita desolada as ruínas do castelo, e pergunta-lhe
qual a razão:
Perguntas-me o que miro?
Traidor rei, que hei-de eu mirar?
As torres daquele Alcácer
Que ainda estão a fumegar!
Se eu fui ali tão ditosa,
Se ah soube o que era amar,
Se ah me fica a alma e a vida...
Traidor rei, que hei-de eu mirar?
Pois mira, Gaia! E, dizendo,
Da espada foi arrancar:
Mira Gaia, que esses olhos
Não terão mais que mirar!
Ainda hoje está dizendo
Na tradição popular,
Que o nome tem – Miragaia
Daquele fatal mirar.
Poderá ser só lenda,
poderá... mas a encosta que o rei subiu chama-se a Rua do Rei Ramiro, a
fonte e a Fonte do Rei Ramiro, as armas da cidade de Gaia estão encimadas
por um cavaleiro tocando trompa, e a zona do Porto, frente ao local onde a
rainha foi degolada, chama-se Miragaia...
O Padre J. Augusto Ferreira escreveu, nas suas Memórias
Archeologico-Históricas da Cidade do Porto, que Miragaia começou a ser
povoada em 1243 e, ao escrever-se sobre o Porto a morte do bispo D. Pedro
Salvadores, em 24 de Junho de 1247, revela-se que nessa data Miragaia era um
pequeno lugarejo de pescadores a beira-rio, haviam sido construídas setenta
e cinco casas e mais algumas se estavam a construir.
Estes textos levar-nos-iam
levianamente a supor que só em 1243 se começa a povoar Miragaia e que em 15
anos só se tinham levantado 75 casas nesta zona, mas o já citado escritor,
no mesmo primeiro volume da sua obra, informa que das Inquirições de 1258,
consta que, junto de Monchique, em menos de quinze anos se tinham erguido
setenta e cinco casas, o que demonstra que se dilatava a cidade pelo
Ocidente até Miragaia.
Quanto a nós, o que será mais
correcto de interpretar destes textos e que Miragaia estava já ligada a
cidade, e viria a adossar-se inclusive a muralha que D. Afonso IV viria a
edificar, e que este desenvolvimento, de facto, e o caminho do ocidente,
portanto de Monchique.
Alias, este nosso ponto de
vista é reforçado pela leitura de Alexandre Herculano, em Lendas e
Narrativas, onde escreve "A povoação de Miragaia assenta ao redor da
Ermida de S. Pedro, que nos fins do século XIV trepava já para o lado do
Olival e vinha entestar pelo norte com o couto de Cedofeita e pelo oriente
com a vila no burgo episcopal".
E é nesta freguesia que se
encontra a maior parte do que resta da mal chamada "Muralha Femandina". E
esclareço que lhe chamo mal chamada muralha fernandina, porque tal titulo só
lhe advém do facto de ter sido no reinado de D. Fernando que ela se acabou,
quando, na verdade, quem teve a ideia da sua construção e a principiou foi
D. Afonso IV, mais precisamente em 1336.
Os quintais e alguns prédios
da Rua Barbosa de Castro, que contactam com as traseiras dos da Rua das
Taipas, estão separados por panos de muralha, que só foi cortada para
abertura da Rua das Taipas (fazendo desaparecer a porta deste nome), muralha
que continua nos terrenos da Brevia dos Religiosos de S. Bernardo, hoje SAOM,
onde existe o único postigo aberto na muralha para terra. Continua pelas
traseiras dos prédios da Rua Tomas Gonzaga e só interrompe no local onde
existiria o postigo da Esperança; e logo temos ali, ao nosso lado, um grande
pano da muralha a descer as escadas do Caminho Novo até lá ao fundo, onde
deveria ter estado a Porta Nobre.
Porta Nobre que teria sido
mandada edificar por D. Manuel I para substituir ou, se quisermos, e supomos
ser o mais correcto, para ampliar o velho Postigo da Praia de Miragaia. A
Praia, que se estendia desta porta até Monchique, era conhecida como a
"Praia do Mosqueiro", mas as gentes de então chamavam-Ihe somente a praia, e
chegava. E é curioso que ainda nau há muito tempo, quando tentávamos a
identificação de um postal existente na colecção da Biblioteca Municipal, ao
contactarmos com as gentes mais antigas da zona, elas ainda denominaram o
largo que forma a Rua de Miragaia, frente a Alfândega, como o "Largo da
Praia"
Há por aí uma grande confusão
e, talvez por se romper por aí a Rua Nova da Alfândega, ou, como costumo
dizer por brincadeira, a Rua da Alfândega Nova, há quem queira nomear a tal
porta como Porta Nobre.
Pinho Leal, no seu sempre
consultado Portugal Antigo e Moderno, esclarece de vez este assunto,
escrevendo: "Continua a muralha em direcção ao Sul, em linha ao rio Douro,
atravessando a Rua da Esperança, em cujo sitio havia um pequeno postigo com
o mesmo nome, o qual creio ter estado em terreno próximo a pequena Capela de
Nossa Senhora dessa invocação, correndo como se vê, junto a ela, a muralha
até fechar na porta nobre, assim nomeada por ser por ela que costumavam
fazer a sua entrada "os Príncipes e grandes Senhores".
Alias, seguindo pela Rua de
Miragaia, que foi cortada quando se criou ah o Largo da Alfandega, vamos
encontrar uma antiquíssima fonte, simples, adossada a um prédio (alias
protegida pela varanda do primeiro andar desse prédio), no local onde
aparentemente a rua acaba, intitulada a Fonte da Colher. Foi restaurada em
1940, aquando da febre das comemorações dos centenários. Era um local de
portagem, que desenvolveremos mais a frente, quando tratarmos das fontes da
freguesia.
Alias, se há freguesia que
ainda tenha locais e denominações a lembrar tempos recuados, essa é, por
certo, Miragaia. E assim lembramos a Rua Ancira, frente a Igreja, que Sousa
Reis acha que, porque e muito apertada (como alias quase todas as daquela
época), derivaria o seu nome de "arecia-augusta-apertada". Supomos que a
explicação e mais simples e derivara, na linha da Rua dos Arménios, de uma
homenagem a lembrar a Ancara ou Angora, nome actual da antiga capital da
província romana da Galasia, na Ásia Menor. Outra rua de nome curioso e a da
Atafona, nome de um engenho de moer grão - e não nos podemos esquecer que
relativamente perto, se bem que já na freguesia de S. Nicolau, existe a zona
do forno comunitário, e ainda por lá ficou a Calcada do Formo Velho. E
vamos, uma vez mais, chamar à puridade o "velho Sousa Reis, que informa que
Atafona é um moinho de moer em seco e deriva o nome da palavra árabe Tamane,
que significaria moer, ou do hebraico Tahane, que significa mó.
Esta atafona, e este moinho
velho, trazem-nos a baila outra das grandes zonas desta freguesia – a dos
judeus! Alias bem lembrada na toponímia miragaiense, com a Escada do Monte
dos judeus, a Rua do Monte dos judeus e Os Cidrais – de baixo e de cima.
Frei Fernando da Soledade, na sua História Seráfica, lembra que em
1410 foi dada autorização a Gil Vaz da Cunha para construir umas moradas no
pequeno monte em que tinham habitado os judeus, e onde existia uma sinagoga
abandonada. Era o Bairro dos judeus, em Monchique.
O Porto teve varias
judiarias, os locais onde "arrumavam" os judeus. Eram perseguidos, na
teoria, como culpados pela morte de Cristo, mas, na prática, por problemas
económicos. A religião cristã proibia os fieis de ganharem com a onzena, o
que, ao fim e ao cabo, os proibia de ganhar dinheiro com o dinheiro. Por
aqui não surgiram grandes problemas - a Igreja cristã não os hostilizava e
foram-se mantendo até ao decreto que, por força de umas saias, D. Manuel I
promulgou. Mas mesmo aí não tiveram problemas os judeus de Miragaia e os
outros do restante Porto. Quando receberam da Câmara a comunicação do
decreto real, puderam, sem o menor vexame, embarcar no Douro com destino a
Inglaterra e a Holanda.
O seu bairro, em Miragaia,
ocupava um largo espaço entre a praia, a escarpa da bandeirinha e a zona de
Monchique. Tinham a sua sinagoga própria e cemitério privativo. A sinagoga
situar-se-ia no terreno onde, no século XVI, se construiu o Convento de
Monchique, e o cemitério - o almocavar - localizar-se-ia ao fundo da rua da
Bandeirinha, nuns terrenos hoje murados e que confinam com o local da dita
Bandeirinha.
Quanto a bandeirinha
propriamente dita, foi durante muito tempo mais uma das marcas do rio, uma
das que serviam de orientação para quem subia o rio. Depois, no século XVIII,
passou a ser conhecida como "bandeirinha da saúde", por ser o sinal
indicativo de que nenhum barco devia ultrapassar essa zona sem receber
primeiro a visita da inspecção sanitária. Eram tempos de peste e todos os
cuidados eram poucos. Havia necessidade de evitar o contágio a cidade.
Durante algum tempo, ainda que muito pouco, a paragem foi também obrigatória
para a visita dos homens de Santo Oficio, à procura de livros ou símbolos de
heresia ou desvio da religião oficial.
Era um plinto de granito, que
sempre se manteve no seu sítio, onde se arvorava uma haste de ferro que
suportava uma bandeira de chapa pintada de amarelo (a cor da peste). O ferro
era encimado por uma espécie de esfera armilar. Por força do vento ou da
corrosão, a haste, a bandeira e a esfera desapareceram, mas voltaremos a
falar deste assunto com mais pormenor quando tratarmos da zona da
Bandeirinha.
Do outro lado do largo fica o
Palácio da Bandeirinha ou, para o portuense vulgar, o Palácio das Sereias,
com o brasão dos Cunhas Portocarrero na frontaria, virada ao rio, ladeado
por duas sereias em granito. Nos anos 4o era um local de peregrinação oculta
dos "grandes" das escolas primarias das redondezas, para ver as "mamudas". E
que naquele tempo ainda não havia televisão com programas hardcore e
a pomografia ficava-se por uns beijos "à artista", em filmes mais ousados do
Carlos Alberto ou do Parque das Camélias. E ter logo aí dois pares das ditas
era mesmo motivo para peregrinação. Hélder Pacheco faz-se eco da lenda, que
se contava nos tempos da avó dele, de que as sereias desnorteavam os
rapazes. E a sua miragaiense avó retorquia sempre que "os encantamentos eram
mas é os castigos dos meninos que iam lá acima ver as mulheres nuas. E ela
bem sabia porquê...
O palacete foi mandado
construir em 1575 pelo fidalgo D. Pedro da Cunha, enquanto sua esposa, D.
Brites de Vilhena, mandava edificar o convento de Monchique. Durante o
século XVII, foi o Palácio das Sereias habitado pela família dos Cunhas e
Vilhenas. No século XVIII, passou para a família Portocarrero.
Aquando das invasões
francesas, o então proprietário, oficial de artilharia, foi considerado,
talvez pelo seu nome (Portocarrero), estrangeiro e o seu corpo foi arrastado
pelas ruas, sendo depois lançado ao rio junto aos muros de Miragaia.
Por razão de partilhas, o
Palácio foi vendido ao Instituto das Filhas da Caridade Canossianas
Missionarias.
E, já que referimos
Monchique, é altura de lembrar um dos privilégios dos homens do Porto e que,
resumidamente, se cifrava no facto de ser proibido aos fidalgos residir ou
passar largas temporadas no Porto. A evolução foi-se dando e os fidalgos
foram abusando, fazendo esquecido o direito, até que, e como Camilo Castelo
Branco tão bem evoca no seu Mosaico,"concedeu o Porto a Fernão
Coutinho que vivesse nas suas casas de Monchique quarenta e cinco dias cada
ano, repartidos em três temporadas, cada uma de quinze dias. Vindo o seu
descendente Rodrigues Pereira ao Porto, e demorando-se mais de três dias
para alem dos determinados, se ajuntou o povo e lhe pôs fogo às casas
e houve mortos. Queixou-se Rodrigues Pereira ao juiz e vereadores. Os
criminosos foram absolvidos por matarem e incendiarem em defesa dos seus
privilégios.
A baixa de Miragaia, com as
suas famosas arcadas, que mais não eram do que a frente das casas que davam
para o areal, foi pouco a pouco sendo invadida pelo grupo terciário da nossa
população, neste caso concreto os despachantes e transitários, e os seus
escritórios foram tomando conta, como e habito, dos andares onde vivia
gente. Mas o rio deixou de ter tráfego e as cargas por contentores,
com muitas entregas directas aos importadores, foram cerceando a actividade
dos despachantes e transitários e assiste-se agora ao fenómeno inverso: os
escritórios partem e voltam as gentes, mas ainda há por cá muito inestética
tabuleta a pedir legislação apropriada...
E, ao recordar a zona
ribeirinha da vizinha Sé, temos de lembrar a da nossa freguesia. Nos tempos
em que o rio era grande, como diz o nosso amigo e arrais Mestre Domingos, ou
seja, no tempo em que não havia barragens no Douro, mal começavam as aguas a
ameaçar a zona da Ribeira, já Miragaia as via a ameaçar as suas casas. E que
a Alfândega foi construída sobre estacaria e dai que o contacto directo das
aguas se faca rapidamente do rio para terra, através dos bueiros abertos
para o movimento oposto. No ano de 1966, a agua foi tanta que algumas vezes
voltou a entrar nas casas e os barcos tomaram a sulcar a Rua de Miragaia. A
luta deste povo reflecte afinal o querer, a vontade indómita desta gente
miragaiense, que se ergue impávida, briosa, a honrar-se como legitima
descendente dos marinheiros de antanho que por aqui viviam.
Sendo uma das mais pequenas
freguesias do Porto, não deixa de ser muito procurada por artistas do
desenho e do pincel, que nas suas arcadas e ruelas vão encontrando, ao longo
dos séculos, motivos de inspiração. Prova disso são, ao acaso, dois quadros
que reproduzimos, de dois períodos tão diferentes: o romântico Gouvêa
Portuense, publicado em livro de sua autoria, e o contemporâneo Angel
Vasquez. |